Projeto Garnacha na Espanha – Resgatando videiras velhas

Projeto Garnacha na Espanha – Resgatando videiras velhas

Esse projeto começou por causa da vontade muito forte do enólogo Raúl Acha, diretor da Vintae, de defender alguns vinhedos centenários de Garnacha nas terras da sua família. Seu pai estava prestes a arrancá-las, quando Raul decidiu provar que aquelas videiras tinham seu valor. Então deu início ao Proyecto Garnachas de España.

Entre Rioja, Navarra, Aragón até a Cataluña, existe alguns pequenos vinhedos com videiras velhas da variedade Garnacha que, na opinião do Raúl mereciam ser redescobertos e desmistificar o papel secundário dessa cepa que por algum tempo veio tendo um papel secundário na produção de vinhos e deixada um pouco de lado, o que na minha opinião foi uma sacada maravilhosa, pois a Garnacha pode gerar vinhos com muita personalidade e qualidade. E é justamente o que Raúl está conseguindo provar através da recuperação dessas videiras e elaboração de vinhos únicos.

O bisavô do Raúl plantou a mais de 100 anos atrás, em 1906, nas terras de sua família, em Cárdena (La Rioja), vinhedos de Garnacha. E Raúl, apaixonado e um grande defensor dessa variedade inicia seu empreendimento pelo Valle del Ebro, começando seu  Projeto Garnacha com o  resgate da história dessa cepa sob seu próprio olhar, somados a um conjunto de opiniões de outros viticultores que foram lhe contando as histórias, suas experiências e a evolução do cultivo dessa variedade em cada local pelas margens do rio Ebro.

Então o Projeto Garnacha se concretizou e teve como resultado uma coleção de vinhos varietais de Garnacha que expressam, além do potencial dessa cepa, o terroir de cada região onde foi elaborado. Alguns desses vinhedos estavam esquecidos, perdidos ou escondidos no Valle del Ebro e as principais zonas do projetos foram:

Regiões do Vale do rio Ebro incluídas no Projeto

  • Cárdenas: nessa região de La Rioja a Garnacha já teve seu protagonismo, porém foi arrancada e substituída pela Tempranillo, restando algumas videiras velhas que dão as melhores Garnachas do mundo.
  • Uncastillo: essa região fica perto dos Pirineus e sofre influência do clima atlântico. Os vinhedos desapareceram com a filoxera e apenas um, plantado em 1999 oferece a Garnacha.
  • Ribera del Queiles: é uma IGP – Indicação Geográfica Protegida para vinhos da zona vitícola do rio Queiles. Normalmente se encontram videiras selvagens de garnachas únicas que foram abandonadas por seus proprietários. O clima é bem quente no verão, e no inverno apresenta temperaturas muito baixas. O terreno fica numa zona de elevadas altitudes.
  • Valle del Ribota: nessa região tinham 50.000 hectares de vinhedo de Garnacha nos anos 50, porém por vários motivos, arrancaram essas videiras e atualmente só restam 4.000 hectares. O clima é continental com temperaturas extremas durante o verão e  inverno, onde a Garnacha costuma dar o melhor de si.
  • El Molar: região de clima mediterrâneo, onde os vinhos produzidos com a Garnacha adquire um carácter mineral muito especial e onde foi redescoberto que a baixa produtividade de videiras velhas geram uvas com alto potencial de qualidade. O solo é de “pizarra” e o terreno apresenta ladeiras pronunciadas.

A Garnacha sob o olhar dos viticultores

Na opinião de muitos viticultores a Garnacha gera vinhos que particularmente eles  apreciam muito, porém as plantas mais velhas são muito pouco produtivas e com pouca rentabilidade.

A Garnacha é muito resistente ao oídio (fungos que atacam as videiras) porém, apresenta algumas características negativas, como a suscetibilidade a pouca transformação da flor em fruto, um dos fatores responsáveis ao baixo rendimento.

Os viticultores mais experientes contaram à Raúl porque ainda mantiveram em seus terrenos algumas videiras velhas. O motivo: os vinhos elaborados a partir dessas videiras velhas eram para consumo próprio, pois conseguiam produzir vinhos de boa qualidade porém, a produtividade de uvas por planta é muito baixa, tornando inviável economicamente. Então com o tempo foram substituídas por variedades mais lucrativas.

Raúl Acha decidiu redescobrir os solos, comprovar influências do clima e o modo das pessoa trabalharem seus cultivos.

As Garnachas Velhas redescobertas por Raúl em seu projeto

  • Garnacha Vieja da Familia Acha: nas parcelas de sua família foram mantidas então as videiras centenárias de Garnacha onde elas produzem de 500gr a 1kg de uva por planta, uma das razões pelo qual seu pai queria arrancá-las, devido a baixa produção. Mas Raúl foi persistente pois queria elaborar um vinho realmente especial. Toda elaboração foi praticamente artesanal.
  • Garnacha Olvidada de Aragón (Garnacha Esquecida de Aragón): em uma região desértica, Raúl conhece Gregório Abad, viticultor que pertence a uma cooperativa que conserva videiras antigas que junto com Jesus Abad, não concordava com o que as pessoas diziam sobre a Garnacha, que era uma variedade que gerava vinhos pastosos e oxidativos. Para eles o que faltava era um estudo maior de como conduzir a elaboração dos vinhos de Garnacha, e quando isso foi feito se descobriu os excelentes vinhos produzidos com essa variedade. Os vinhos varietais de Garnacha de Aragón são equilibrados, com boa graduação alcoólica, agradável volume em boca e com taninos redondos.
  • Garnacha de Hielo: durante as geadas de 2009 em La Rioja, Raúl vislumbrou a possibilidade de fazer a colheita das uvas congeladas devido às temperaturas abaixo de -10ºC e com muita neve, pois queria obter um caldo super concentrado para elaborar seu vinho Garnacha de Hielo (de gelo). Além de congeladas tinham Podredumbre Noble, um fungo que aumenta a concentração de açúcar e torna possível a elaboração de um vinho doce realmente especial.
  • Garnacha Perdida del Pirineo: um vinhedo a 800 metros de altitude com clima frio próximo aos Pirineus, que protege a zona da humidade. Quem plantou e cuida dessas videiras é José Puig, proprietário do vinhedo, que diz que a razão pelo qual mantém essa variedade é por ela ser típica dessa região e com isso tem uma melhor adaptação ao solo e ao clima. Lá ele cultiva a Garnacha de uma maneira ecológica e sua filosofia é que a videira e o vinho expressem ao máximo o terroir, e quando as pessoas beberem esse vinho sintam realmente toda a expressão e o caráter obtido praticamente sem intervenção no cultivo, pois a videira faz seu trabalho de forma sublime.
  • Garnacha Selvagem de Moncayo: nessa região Raúl encontra videiras em estado selvagem, muitas delas abandonadas, e quando eu assisti as imagens que Raúl fez da região, realmente dá uma tristeza ver aquelas videiras abandonadas por seus donos, que muitas vezes com o mesmo pesar, foram incapazes de mantê-las por falta de rentabilidade e impossibilidade econômica.
  • Garnacha Fosca del Priorat: seus vinhedos em terraços e ladeiras bem inclinadas, o clima mediterrâneo e o solo negro de “pizarra”, faz com que os vinhos tenham um caráter mineral. Nessa região Raúl conheceu Francesc Capafons-Osso, viticultor que diz que a Garnacha produz bem menos que a Cariñena e que esta tem mais cor e é mais produtiva, por isso se cultiva mais essa variedade naquela região. Porém, na sua opinião, ainda são desconhecidas as possibilidades que a Garnacha oferece, daí a importância de aumentar os estudos sobre essa variedade.

Os vinhos

  • La Garnacha Orbidada de Aragón: varietal de Garnacha de vinhedos plantados em vaso, em 1940. O vinho passou 10 meses envelhecendo em barrica francesa.

Cor: cereja escuro com reflexos terrosos.

Aroma: tostados, chocolate, frutas do bosque.

Gosto: taninos maduros e bem saboroso

  • La Garnacha Salvaje del Moncayo: varietal de Garnacha plantadas em terreno pedregoso com bastante “pizarra” e seixos. Seu envelhecimento é de 5 meses em barricas francesas novas.

Cor: granada brilhante.

Aroma: frutas vermelhas e toque vegetal.

Gosto: equilibrado, muita fruta como morango e framboesa e final prolongado.

  • La Garnacha Perdida del Pirineo: varietal de Garnacha de vinhedos a 800 metros de altitude com solos de argila e calcário.

Cor: cereja intensa

Aroma: complexo e delicado, notas de violetas e rosas, frutas como framboesa, amora e mirtilo, aromas herbáceos como aneto, louro e alecrim.

Boca: fresco, equilibrado, redondo e consistente.

  • La Garnacha Fosca del Priorat: varietal de Garnacha com envelhecimento de 10 meses em barricas francesas.

Cor: vermelho bordô.

Aroma: mineralidade gerada pelas pizarras da própria terra e frutas vermelhas.

Boca: elegante, complexo e equilibrado.

  • El Garnacho Viejo de la Familia Acha: 100% Garnacha de vinhedo plantados em 1906 e envelhecido em barricas francesas novas por 30 meses.

Cor: vermelho picota escuro

Aroma: muita fruta e aroma sútil que lembra terra.

Boca: elegante, fresco com notas de tabaco e toques minerais. Delicado e maduro.

  • La Garnacha de Hielo: 100% Garnacha colhidas sobremaduras com temperaturas de – 7 graus, de plantas velhas e solo argiloso. Envelhecimento de 18 meses em barrica.

Cor: rosa pálido com tonalidades ocre.

Aroma: notas licorosas, marmelo, casca de laranja, tostados e ervas aromáticas.

Boca: vinho denso, fresco, glicérico e saboroso, deixando um retrogosto de fruta e licor com uma marcada acidez

O Projeto Garnacha é um projeto de êxito e os beneficiados somos nós, amantes dos mundo dos vinhos. É muito bacana ver videiras tão velhas dessa variedade de uva sendo resgatadas e gerando espetaculares vinhos  jovens ou envelhecido em barrica. Vinhos com personalidade que refletem todo potencial da própria terra.

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2 Comentários

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