Defeitos nos vinhos

Defeitos nos vinhos

No universo do vinho acho que esse é um dos temas que mais gera discussão. O que é, afinal, um vinho defeituoso? E o que seria apenas uma característica, especialmente no mundo dos vinhos naturais?

Neste artigo, vamos mergulhar fundo na química dos defeitos, explorando o desequilíbrio entre os elementos estruturais do vinho que dá origem a aromas e sabores indesejados. Mas, como é nossa tradição aqui, daremos um foco especial aos vinhos naturais. E por quê? Porque entender esses vinhos, com suas imensas camadas aromáticas e sua filosofia de mínima intervenção, é fundamental para não cairmos no lugar-comum, hoje já bastante “cafoninha”, de rotular todo vinho natural como defeituoso.

A raiz do equívoco está na comparação com um padrão. O mundo do vinho convencional, por décadas, construiu sua técnica de avaliação em cima de pontuações e numa busca incessante por “pureza” e ausência de defeitos, frequentemente definidos por parâmetros industriais. Tudo o que foge a essa norma padronizada corre o risco de ser interpretado como um erro. Mas essa tendência humana de discriminar o diferente e rejeitar a individualidade em prol de uma uniformidade pasteurizada é algo que a filosofia nos ajuda a questionar: afinal, o que perdemos quando só aceitamos o que é igual?

É crucial deixar claro que os defeitos NÃO são uma exclusividade dos vinhos naturais nem dos convencionais. Uma vinificação natural, conduzida por vinhateiros sérios e competentes, é tão ou mais cuidadosa, pois, ao não utilizar aditivos enológicos “corretivos”, a saúde da uva e a higiene no processo são absolutamente cruciais. A diferença fundamental é que, enquanto o vinho convencional pode mascarar ou “corrigir” um desvio com uma bateria de insumos para se enquadrar num padrão de mercado, o produtor natural assume o risco e a beleza de ter o vinho como ele é, em sua expressão mais pura.

Ao longo deste artigo, vamos falar sobre os principais defeitos que podem aparecer no vinho, sempre com um olhar atento para diferenciar o que é, de fato, um problema, do que é uma característica inerente aos vinos de baixa intervenção. Abordaremos:

  • Acidez volátil alta (etilacetato) 
  • Cheiro de rato (mousiness) 
  • Redução
  • Acetaldeído
  • Perda de acidez
  • Gordura no vinho (graisse du vin)
  • Precipitações tartáricas

Já falamos sobre alguns outros defeitos do vinho em outros artigos, que deixo aqui junto com os links pra você conferir:

Para nos situarmos, precisamos entender que os aromas e sabores dos vinhos naturais são, de fato, muito diferentes. É a diferença entre um suco de fruta espremido na hora e um industrializado cheio de aromatizantes; entre um pão de fermentação natural, com sua complexidade e acidez, e um pão de forma industrial, macio e uniforme. Os processos enológicos convencionais, com suas leveduras selecionadas, enzimas, taninos em pó e outros aditivos, atuam como uma “maquiagem” que padroniza e dita como os vinhos “devem” cheirar e qual o gosto deve ter. 

Nos vinhos naturais, a mínima intervenção nos presenteia com vinhos mais livres, onde a pureza da fruta, do lugar e da natureza falam mais alto. A pergunta que fica é: o que importa para você? A expressão autêntica de um terroir ou a segurança de um produto moldado pela indústria?

É claro que vinhos naturais também podem estar defeituosos. Quando uma única característica, como a volátil da Brett ou a acidez do etilacetato, predomina de forma agressiva e desagradável, sobrepondo-se a todas as demais, é muito provável que estejamos diante de um defeito, e não de uma característica.

Uma nota importante: o uso de dióxido de enxofre (SO2) é uma ferramenta poderosa para prevenir o surgimento de muitos desses defeitos, mas seu papel e as filosofias em torno de seu uso nos vinhos naturais e convencionais é um assunto tão vasto que merece um artigo à parte.

A REDUÇÃO E SEUS AROMAS

Imagine a fermentação. Milhares de leveduras trabalham em um ambiente líquido, transformando o açúcar da uva em álcool e dióxido de carbono. Esse é um processo anaeróbico (sem oxigênio), mas que gera uma infinidade de compostos secundários. Entre eles, estão os compostos de enxofre. O enxofre é um elemento essencial para a vida das leveduras — elas o utilizam para produzir aminoácidos e vitaminas. Porém, como em todo processo metabólico, há uma linha tênue entre a produção do necessário e o acúmulo de subprodutos.

Quando as leveduras estão estressadas — seja por falta de nutrientes no mosto (comum em vinhedos muito pobres ou em colheitas com pouca saúde da uva), seja por alta turbidez — a “linha de produção” engasga. Em vez de incorporar o enxofre de forma eficiente, as leveduras começam a produzir e liberar compostos de enxofre voláteis. Estamos falando da redução.

Os principais personagens dessa história molecular são três. O primeiro é o sulfeto de hidrogênio (H₂S) , o “rei” da redução, responsável pelo famoso cheiro de ovo podre. Ele se forma quando a levedura, faminta por nutrientes (especialmente nitrogênio), encontra enxofre e, em vez de produzir os aminoácidos de que precisa, expele o H₂S. Depois vêm os mercaptanos (tióis) : em concentrações baixíssimas, podem ser interessantes, lembrando notas de pedra pederneira (a famosa “pedra de isqueiro” em alguns vinhos brancos). Mas, quando se acumulam, seus aromas tornam-se desagradáveis — cebola, alho, borracha queimada. Por fim, há os dissulfetos : se os mercaptanos não forem tratados e continuarem em contato com o oxigênio, podem oxidar-se e formar esses compostos ainda mais difíceis de remover, com aromas agressivos de repolho cozido, couve-flor e borracha intensa.

Na taça, a redução se manifesta primeiro no nariz. É um aroma que não convida, que parece “tapar” a fruta. Dependendo do estágio, podemos sentir desde notas leves de fumaça e pedra de isqueiro (que podem até se confundir com o carvalho novo) até aromas moderados de borracha, alho, cebola, chegando a estágios avançados de ovo podre, repolho cozido e notas pútridas que dominam completamente a fruta. Na boca, o vinho reduzido frequentemente parece “fechado”, duro — a percepção da fruta e da complexidade aromática está bloqueada.

Para o produtor natural, biodinâmico ou ecológico, a abordagem é diferente daquela ditada pela indústria convencional. A redução pode não ser um erro aleatório, mas um sintoma. É um sinal de que algo aconteceu na vinha ou na adega. No vinhedo, um solo desequilibrado, com pouca vida microbiana, pode produzir uvas com baixo teor de nutrientes, estressando as leveduras nativas. A redução, então, é um reflexo direto da saúde do solo. Na adega, o uso de baixíssimas doses ou nenhum sulfito, a fermentação espontânea e os longos períodos de estágio sobre as borras finas em recipientes como ânforas ou barricas usadas criam um ambiente naturalmente mais redutor.

A arte do produtor natural é, então, a arte do equilíbrio e da paciência. Ele sabe que muitos vinhos passam por uma “fase redutora” durante o estágio ou logo após o engarrafamento. É como se o vinho se recolhesse sobre si mesmo para se proteger. E a ferramenta para reverter esse quadro é incrivelmente simples: o ar, o oxigênio. A decantação, a agitação na taça ou até mesmo o uso de um fio de cobre (que reage quimicamente com o H₂S) podem “despertar” o vinho, fazendo com que os aromas redutores desapareçam e a fruta finalmente se revele. Ao receber um vinho com um traço redutor, somos desafiados a ir além do primeiro impacto, a dar-lhe tempo, a arejá-lo, a dialogar com ele.

O “RATO” 

Poucos fenômenos são tão intrigantes e traiçoeiros quanto o temido “gosto de rato” (mousiness ou goût de souris). Para o bebedor desavisado, a experiência pode ser desconcertante: um vinho que se apresenta limpo e convidativo no nariz revela, após alguns segundos na boca, um sabor desagradável que lembra cheiro de gaiola de rato, bolacha de água e sal murcha ou pipoca estragada.

Antes de avançarmos, é preciso um esclarecimento honesto: diferente de algumas narrativas que tentam “ressignificar” certos defeitos como expressão do terroir, o gosto de rato é, do ponto de vista técnico e sensorial, uma alteração química indesejável. Não é personalidade do vinho, nem caráter selvagem. E, sim, produtores naturais também cometem erros. O que não significa que todo vinho natural tenha rato, nem que todo vinho convencional esteja livre dele. Significa apenas que, quando falamos de vinificação de mínima intervenção, o controle precisa vir do conhecimento, não dos aditivos.

Os compostos responsáveis pelo mousiness pertencem a uma família de moléculas chamadas N-heterociclos: ATHP, ETHP e APY. Estas moléculas não surgem do acaso. São produtos do metabolismo secundário de microrganismos que habitam o vinho, particularmente quando o ambiente lhes é favorável. Durante muitos anos, acreditou-se que a grande culpada fosse a levedura Brettanomyces. No entanto, a ciência moderna revelou um cenário muito mais complexo. A produção desses compostos é, na verdade, um exemplo clássico de sinergia microbiana. As bactérias lácticas, especialmente a Oenococcus oeni (a mesma que realiza a fermentação malolática) e a Lactobacillus hilgardii, são as grandes protagonistas deste defeito na maioria dos casos.

O processo funciona como uma linha de produção bioquímica. Tudo começa com a presença de certos aminoácidos no mosto ou no vinho. A levedura Saccharomyces cerevisiae — tradicionalmente considerada a “mocinha” da história — pode, sem querer, alimentar o problema, produzindo acetaldeído durante a fermentação. Algumas cepas podem até aumentar a concentração desse composto, que é um precursor direto para a formação dos N-heterociclos por parte das bactérias. Ou seja: a escolha da levedura (ou a decisão de deixar as selvagens agirem) influencia diretamente o risco. Tanto a Brettanomyces quanto as bactérias lácticas, utilizando etanol, acetaldeído e aminoácidos como blocos de construção, sintetizam as moléculas problemáticas.

Aqui chegamos ao aspecto mais intrigante do “rato”. Os compostos N-heterociclos têm uma característica química fundamental: eles são básicos. O vinho, por sua vez, é um meio ácido. Neste ambiente, essas moléculas existem em uma forma não-volátil, o que significa que não evaporam facilmente e, portanto, não conseguem alcançar nossos receptores olfativos pelo nariz. É como se o defeito estivesse “adormecido” dentro do copo. Por isso é perfeitamente possível ter um vinho com nariz limpo que esconde o problema.

Ao provarmos o vinho, o líquido ácido entra em contato com a nossa saliva, que tem um pH mais neutro. Esse aumento de pH “liberta” as moléculas, que se tornam voláteis e sobem pela via retronasal para serem finalmente percebidas como aquele desagradável aroma. Essa percepção é também profundamente pessoal. O pH da saliva varia de pessoa para pessoa e até na mesma pessoa ao longo do dia. Isso explica por que, à mesma mesa, duas pessoas podem ter reações completamente opostas ao mesmo vinho.

Se o defeito não é característica, por que ele é tão associado aos vinhos de mínima intervenção? A resposta é simples: a vinificação natural, com sua ausência ou baixíssimo teor de sulfitos, cria um ambiente de maior liberdade microbiológica. O dióxido de enxofre, amplamente utilizado na vinicultura convencional, atua como um poderoso agente seletivo, inibindo o crescimento de microrganismos indesejados. No vinho convencional, o produtor tem ferramentas químicas para “domar” a fermentação. No vinho natural, o produtor faz uma aposta. Ao permitir que as leveduras indígenas e as bactérias do próprio terroir atuem, ele abre a porta para uma complexidade microbiológica muito maior. O risco de algo “sair do controle” é inerente a essa aposta.

Mas é preciso repetir: risco não é justificativa. Um produtor natural competente não aceita o “rato” como fatalidade. Ele entende que, sem os escudos químicos da enologia convencional, seu escudo passa a ser o conhecimento profundo do ecossistema da adega, a higiene rigorosa, o controle de temperatura e, acima de tudo, uvas sãs. Desmistificar o “gosto de rato” é, no fundo, um exercício de honestidade. É reconhecer que a busca pela autenticidade não é uma carta branca para erros técnicos. É, na verdade, um convite a uma viticultura e enologia ainda mais precisas.

ACIDEZ VOLÁTIL ALTA: ENTRE A COMPLEXIDADE E O DEFEITO

A acidez volátil é, sem dúvida, a “faca de dois gumes” dessa história. Para o bebedor de vinhos convencionais, treinado para apreciar aromas e sabores pré-determinados, qualquer sinal de volátil é imediatamente relacionado a defeito. No entanto, para o adepto dos vinhos naturais, a conversa é mais sutil: onde termina a expressão legítima do “vivo” e começa o erro de vinificação?

Quando falamos em acidez volátil, o senso comum nos leva ao cheiro de vinagre. E não está errado, mas é uma simplificação. A acidez volátil é o conjunto de ácidos presentes no vinho, sendo o principal o ácido acético. A grande vilã, no entanto, não é apenas ele, mas um éster formado a partir dele: o acetato de etila. É este composto o responsável pelo cheiro de solvente, removedor de esmalte, cola de sapateiro, que torna um vinho realmente desagradável.

A formação desses compostos ocorre por vias bioquímicas distintas. Primeiro, há a via das leveduras durante a fermentação alcoólica: mesmo uma fermentação saudável produz uma pequena quantidade de ácido acético como subproduto natural. Em condições de estresse (altas temperaturas, nutrição deficiente), as leveduras podem produzir mais AV que o normal. Nos vinhos naturais, onde não se adicionam nutrientes químicos, esse estresse pode ocorrer, resultando em um teor ligeiramente superior que para mim, dentro de certos limites, pode ser integrado à complexidade e torna o vinho muito interessante. 

Depois, há a via das bactérias acéticas, o mecanismo mais temido. Bactérias dos gêneros Acetobacter e Gluconobacter oxidam o etanol em ácido acético. Essas bactérias são aeróbicas, ou seja, precisam de oxigênio para viver. Na vinificação natural, onde o uso de sulfito é reduzido e muitas vezes se privilegia a oxigenação controlada, o risco de um pico populacional dessas bactérias aumenta. 

Por fim, há a via das bactérias lácticas: durante a fermentação malolática, elas podem metabolizar outros componentes e produzir ácido acético como subproduto.

O limiar entre o interessante e o defeituoso é uma questão de grau. Em níveis baixos (até 0,6 g/L), o ácido acético pode contribuir para uma sensação de frescor e complexidade, criando uma “vibração” no vinho. Em níveis médios (0,7 a 0,9 g/L), começa a ficar evidente — o aroma de vinagre surge de forma sutil, e o vinho pode parecer “cortante” demais. Em níveis altos (acima de 1,0 g/L), o defeito se instala. Se o acetato de etila estiver presente, o cheiro de solvente domina, tornando o vinho impossível de beber. Na boca, há uma sensação de ardência, um “picado” na garganta.

Um leve toque de AV pode integrar a personalidade do vinho, em certos estilos, uma certa “volatilidade” é quase uma assinatura, conferindo complexidade e um quê picante.

Acredito que  chave é o equilíbrio: a AV é um componente, não o protagonista. É a “pimenta” que não mata o prato. Quando o equilíbrio se perde, quando o acetato de etila aparece, o vinho se torna unidimensional. Pode ter sido uma cuba mal completada, uvas insalubres ou uma extração mecânica agressiva. 

Perda da Acidez, Cristais e a Gordura no Vinho (Graisse)

A acidez é um dos elementos estruturais do vinho. É ela que dá sustentação, frescor e capacidade de movimento. Quando esse equilíbrio se perde, o vinho não apenas muda de sabor, em casos extremos, ele literalmente desaba.

Para compreender a perda de acidez, precisamos entender de onde vêm esses ácidos. A uva contém naturalmente ácidos tartárico, málico e cítrico. O ácido tartárico é o mais importante para a sensação de frescor e também o mais estável. O ácido málico, aquele da maçã verde, é mais agressivo e instável. Durante a fermentação malolática, bactérias lácticas convertem o ácido málico em ácido láctico que é  mais redondo e cremoso.

Um vinho que perdeu acidez entra na boca de forma estranha. No início, pode até parecer agradável pela ausência de aspereza, mas rapidamente se revela “plano”, sem aquela salivação provocada pela acidez. Os aromas ficam soltos, sem amarração. Em casos mais graves, aparece uma nota de fruta cozida.

Os vinhos convencionais raramente apresentam perda severa de acidez porque os enólogos podem adicionar ácido tartárico em pó quando necessário. Nos vinhos naturais, esta correção não existe. O produtor depende inteiramente da qualidade da uva, do momento da colheita e do manejo das fermentações. Mas será que toda perda de acidez é defeito? Existem vinhos de regiões muito quentes que naturalmente têm baixa acidez. Nestes casos, é uma característica do terroir. A diferença está na vitalidade: um vinho com baixa acidez mas vivo, com energia, é um vinho de terroir. Um vinho com baixa acidez e morto, sem frescor, é defeituoso.

Paralelamente a essa questão, há fenômenos que muitos confundem com defeitos mas que são, na verdade, sinais de autenticidade. Os cristais de tártaro, por exemplo, aqueles pequenos fragmentos que às vezes aparecem no fundo da garrafa, são simplesmente bitartarato de potássio, um sal formado pelo ácido tartárico combinado com o potássio das uvas. Nos vinhos convencionais, estes cristais são removidos industrialmente por estabilização tartárica, um processo que força sua precipitação antes do engarrafamento. O resultado é uma garrafa cristalina que o consumidor associa à pureza, mas que é apenas um vinho que passou por uniformização estética. Nos vinhos naturais, a não-intervenção significa aceitar que estes cristais podem aparecer. Para o produtor que respeita a integridade do vinho é um sinal de que o vinho não foi violentamente estabilizado.

Há também outro fenômeno, como a “graisse” (gordura). Para entendê-la, precisamos entender os polissacarídeos, que são longas cadeias de açúcares que microrganismos excretam durante sua atividade. Após a fermentação, as bactérias lácticas entram em cena. Em certas condições, algumas cepas podem “desviar” de sua rota principal e começar a metabolizar açúcares residuais, produzindo quantidades anormais de polissacarídeos como os beta-glucanos. Imagine fios microscópicos de açúcar se acumulando no líquido. Quando esses fios se entrelaçam em grande quantidade, aumentam drasticamente a viscosidade. O vinho não está contaminado, ele está simplesmente, “gordo” por uma superprodução de moléculas que ele mesmo gerou.

A textura se torna mais untuosa, mais presente. Curiosamente, a graisse pode ser apenas uma fase. É comum que esse aspecto oleoso apareça durante a maturação e, com o tempo, desapareça espontaneamente. Nessa perspectiva, a graisse deixa de ser um “defeito” fixo e passa a ser um estágio da vida daquele vinho. O produtor que não tem pressa pode simplesmente esperar que ele se “desamarre” sozinho.

ACETALDEÍDO 

O acetaldeído é um metabólito primário das leveduras durante a fermentação. Ao se alimentar do açúcar da uva, a levedura passa por um processo que gera o acetaldeído como um passo anterior à formação do etanol. Ou seja, todo vinho tem acetaldeído. A questão é: quanto?

A formação e a degradação do acetaldeído seguem um equilíbrio delicado. Durante a fermentação alcoólica, as leveduras o produzem. Em condições ideais, a maior parte é rapidamente convertida em etanol. Porém, fatores como deficiências nutricionais, temperaturas muito baixas ou uma população de leveduras estressada podem fazer com que as leveduras excretem acetaldeído em vez de convertê-lo totalmente. Além disso, o acetaldeído também é um produto da oxidação química: o oxigênio, ao entrar em contato com o vinho, oxida o etanol, transformando-o novamente em acetaldeído.

Em níveis baixos a moderados, ele contribui para notas de frutas de caroço (marmelo, maçã assada) e um caráter de frutos secos. Isso é não apenas é aceito, mas desejado em estilos que buscam uma expressão mais oxidativa. Um toque sutil pode dar complexidade. Em níveis elevados, porém, ele deixa de ser uma nota de fundo e se torna um aroma dominante e desagradável: maçã ou pêra passadas, solvente, verniz, aquele caráter de vinho “aberto há muitos dias”, achatado, sem frescor. Na boca, o excesso pode causar amargor e aspereza, “cortando” a percepção da fruta e deixando o vinho cansativo.

Terminamos propondo um convite à reflexão sobre a própria natureza humana. Todos somos diferentes, cheios de virtudes e idiossincrasias. E é justamente nessas diferenças que surgem as manifestações mais interessantes e geniais. 

E acho bem interessante levar esse olhar para o vinho, celebrando a diversidade e buscando um mundo bebível mais plural, onde haja espaço para todos os vinhos, com suas virtudes e, por que não, com seus “defeitos” (entre muitos parênteses) que, no fim das contas, podem ser apenas a assinatura única de um lugar e de um produtor que ousou ser livre. 

Viva a diversidade e bons vinhos!

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